No meio da tarde, as pálpebras pesam e a concentração começa a falhar. Você fecha os olhos por meia hora e acorda com a sensação de estar renovado. Mais tarde, porém, já deitado na cama, fica se virando de um lado para o outro, sem entender por que o sono não vem. Aquele cochilo do meio do dia, tão agradável na hora, pode ter sido o gatilho.
Os cochilos há muito tempo são celebrados por aumentarem o estado de alerta, melhorarem o humor, reforçarem a memória e elevarem a produtividade. Ainda assim, para algumas pessoas, eles acabam atrapalhando o sono noturno.
Cochilar é uma faca de dois gumes. Quando bem feito, é uma forma eficaz de “recarregar” o cérebro, afiar a concentração e favorecer a saúde mental e física. Quando mal planejado, pode causar lentidão, confusão ao despertar e dificuldade para pegar no sono mais tarde.
Entender esse efeito passa por compreender como o corpo controla o sono e a vigília.
O relógio biológico e os cochilos no começo da tarde
A maioria das pessoas percebe uma queda natural de energia no início da tarde, geralmente entre 13h e 16h. Não é apenas culpa de um almoço mais pesado: o nosso relógio interno - o ritmo circadiano - organiza o dia em ciclos de maior alerta e maior sonolência. Essa “moleza” do começo da tarde faz parte do processo, o que explica por que tanta gente sente sono nesse horário.
Pesquisas indicam que um cochilo curto nesse período - de preferência seguido de exposição a luz forte - ajuda a reduzir a fadiga, aumentar o estado de alerta e melhorar o desempenho cognitivo sem necessariamente prejudicar o sono noturno. Esses “cochilos energéticos” dão uma pausa ao cérebro sem avançar para um sono profundo, facilitando acordar com sensação de descanso.
“Inércia do sono”: quando o cochilo passa do ponto
Há um porém: cochilar por tempo demais pode fazer você acordar pior do que antes. Isso acontece por causa da “inércia do sono” - a sensação de torpor e desorientação que surge quando despertamos em fases mais profundas.
Quando o cochilo ultrapassa 30 minutos, o cérebro tende a entrar no sono de ondas lentas, e despertar se torna muito mais difícil. Estudos mostram que acordar a partir do sono profundo pode deixar a pessoa lenta por até uma hora.
Isso pode ser particularmente problemático se, em seguida, ela precisar executar tarefas críticas para a segurança, tomar decisões importantes ou operar máquinas, por exemplo. E, se o cochilo acontecer tarde demais, ele pode reduzir a “acumulação da pressão do sono” - a necessidade natural que o corpo constrói ao longo do dia -, tornando mais difícil adormecer à noite.
Quando cochilar é indispensável
Para algumas pessoas, cochilar não é opcional. Trabalhadores em turnos frequentemente enfrentam sono fragmentado por causa de horários irregulares, e um cochilo bem programado antes do turno noturno pode aumentar o alerta e diminuir o risco de erros e acidentes.
Da mesma forma, quem rotineiramente não consegue dormir o suficiente à noite - seja por trabalho, cuidados com filhos ou outras exigências - pode se beneficiar de cochilos para “guardar” horas extras de sono e compensar parte da perda.
Ainda assim, usar cochilos como substituto para melhorar o sono noturno funciona mais como um remendo de curto prazo do que como uma estratégia sustentável. Pessoas com insónia crónica muitas vezes recebem a orientação de evitar cochilos por completo, já que dormir durante o dia pode enfraquecer a vontade de dormir à noite.
Há também grupos que usam cochilos de forma estratégica para melhorar desempenho. Atletas incluem cochilos na rotina de treino para acelerar a recuperação muscular e optimizar indicadores ligados ao rendimento, como tempo de reacção e resistência.
Evidências também sugerem que profissionais em funções de alta exigência de atenção - como trabalhadores da saúde e tripulações de voo - se beneficiam de cochilos breves e planeados para sustentar a concentração e reduzir erros ligados à fadiga. A Nasa observou que um cochilo de 26 minutos pode melhorar o desempenho de equipas operacionais de voos de longa duração em 34 por cento e aumentar o estado de alerta em 54 por cento.
Como cochilar bem
Para que o cochilo funcione a seu favor, o horário e o ambiente fazem diferença. Manter o cochilo entre dez e 20 minutos ajuda a evitar a sonolência ao acordar. O melhor é cochilar antes das 14h - se for muito tarde, pode atrasar o horário natural do sono.
Os cochilos mais reparadores acontecem num local fresco, escuro e silencioso, semelhante às condições ideais para dormir à noite. Máscaras de olhos e fones com cancelamento de ruído podem ser úteis, especialmente para quem precisa cochilar em ambientes claros ou barulhentos.
Mesmo com vantagens claras, cochilar não serve para todo mundo. Idade, estilo de vida e o padrão de sono de base influenciam se o cochilo vai ajudar ou atrapalhar. No fim, um bom cochilo depende de estratégia - saber quando, como e até se vale a pena cochilar.
Para alguns, é um atalho inteligente para aumentar foco e energia. Para outros, vira um caminho escorregadio para bagunçar o sono. O mais importante é testar e observar como os cochilos influenciam a qualidade do seu sono como um todo.
Quando usados com critério, os cochilos podem ser uma ferramenta valiosa. Quando mal planejados, talvez expliquem por que você fica encarando o teto à meia-noite.
Talar Moukhtarian, Professora Assistente em Saúde Mental, Warwick Medical School, University of Warwick
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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